terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Um envelope na árvore de Natal



Na casa de Janas há muitos anos que na árvore de Natal aparece pendurado um envelope vermelho sem remetente ou destinatário. Tudo começou por causa do tio Álvaro. O velho e espartano solteirão detestava o Natal, para ele algo a que se acrescia lucro e IVA. Era avesso às compras, às comezainas pantagruélicas e aos pares de meias com ursinhos embrulhadas em papéis com fitas cintilantes. Até o Pai Natal era uma invenção da Coca-Cola, alegava, reprovador.

Sabedora do feitio torto, naquele Natal Sofia decidiu deixar de lado as peúgas e gravatas às bolas e foi à procura de algo que o velho tio apreciasse, e a ideia surgiu um pouco por acaso: Sérgio, o filho mais novo, jogava futebol no colégio, em Dezembro a sua equipa fora disputar um jogo em Monte Abraão. Em contraste com os equipamentos limpos e de boas marcas da equipa do Sérginho, os da outra equipa eram velhos, e as sapatilhas esfarrapadas. O tio Álvaro também fora ver o jogo, e sentira a diferença entre os que têm e os que anseiam, reais mundos deste mundo. Os de Monte Abraão perderam o jogo, o tio Álvaro, velho adepto de futebol,  encolheu os ombros e comentou:

-Os miúdos da outra equipa têm potencial, mas é pena, têm poucas condições, é por isso que muitos depois desistem. Apesar de torcer pelo nosso Sérgio, gostava que tivessem ganho! -desabafou, mais expansivo que o habitual.

Nos anos sessenta, Álvaro Camacho fora treinador de juniores no Seixal, a alguns viu mesmo singrar nas divisões intermédias, e de todos ficou amigo para o resto da vida. Passados os anos, e com muitos dos putos já veteranos, tinham por hábito juntar-se e comentarem os jogos e as carreiras difíceis. O desabafo deu a Sofia uma ideia para um presente que por certo o levaria a mudar de ideias quanto à data. Divorciada, e com alguma folga financeira que permitira construir a casa em Janas, tinha um coração generoso. Uns dias antes daquele Natal de 97, entrou numa loja de desporto, comprou onze pares de sapatilhas e enviou-as à escola de Monte Abraão. Na noite de Natal, discretamente, pendurou na árvore cintilante um envelope vermelho com um bilhete para o tio Álvaro, a oferta das sapatilhas aos miúdos era o presente dela para ele. Surpreendido, esboçou um sorriso discreto mas luminoso e naquele ano, depois da ceia, até comeu filhoses e bebeu um cálice de Porto.

Nos anos seguintes, a árvore de Natal passou a contar sempre com um envelope vermelho pelo qual um grupo de crianças ou pessoas carentes beneficiaria: um ano, foi um cheque a um paralímpico sem meios; outro, um peru para o lar de idosos onde vivia a Ercília, antiga criada da família, e o envelope surpresa passou a ser o momento alto do Natal pelo qual o tio Álvaro, rendido, passou a aguardar, sem grandes exuberâncias, mas interiormente feliz. Religiosamente, era sempre o último presente a ser aberto na noite de Natal, e com o tempo até o Sérgio e os irmãos mais novos deixaram de ligar aos brinquedos que sabiam ir receber, antes ansiosos pelo momento em que se revelasse quem seriam esse ano os contemplados. O tempo foi passando, e as crianças crescendo, o inevitável envelope nunca mais perdeu lugar e encanto.

Há dois anos, um cancro de pulmão fez das suas e o tio Álvaro partiu, levando o homem que detestava o Natal mas involuntariamente proporcionara vários Natais felizes.

O ano passado, ainda chorosos pela perda do tio, Sofia e Sérgio, já adulto, como sempre enfeitaram a árvore junto à lareira onde pontificavam retratos de família, com o tio Álvaro em destaque. No meio das bolas e luzes, e do presépio da avó Chica, de novo foi colocado um envelope vermelho, bem ao centro. Foi Sérgio quem cúmplice o colocou. Antes da ceia do Natal, um segundo envelope adornava outra ramagem, e à noite mais três se lhe juntaram. Também os mais novos colocaram envelopes, alegando ser coisa do Pai Natal.

À meia-noite, depois da ceia, juntaram-se todos à volta da árvore e abriram o envelope com a prenda que em memória do tio Álvaro iriam oferecer: a Joaninha, duas bonecas para o ATL da escola, em Morelinho; o Rui, uma bola de futebol para os filhos do Etelvino, desempregado e em dificuldades; até o Marquitos, na ingenuidade dos seus cinco anos, ofereceu um desenho, representando o tio Álvaro, de quem vagamente se lembrava, treinando dois meninos a jogar futebol. Nos natais da casa de Janas, o espírito de Natal passou a ser o momento da homenagem àquele velho tio avesso às aparências, e a ser mais importante dar que receber. É Dezembro de Natal e está frio, na rádio toca Rudolph the Red Nosed Reindeer, e fico por aqui, que há envelopes para ir comprar… 
     

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