terça-feira, 29 de dezembro de 2015

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O boicote eleitoral

 

Serafim, o funcionário da junta, foi o primeiro a chegar com os boletins de voto, na mesa da secção eram os do costume, que a sanha pelos cinquenta euros e dia livre no dia seguinte dera direito a disputa. A Cesaltina já estivera na mesa muitas vezes, era agora a vez do Castro, o barbeiro, ser o escrutinador. Como sempre, a escola primária servia de
secção de voto, só dois partidos mandaram observadores, o Tiago, estudante de Arquitectura, e o Tavares, da loja de ferragens.
 
A freguesia era estável. Os mais idosos votaram pela manhã, alguns com o livro de missa na mão, o Falcato, do partido do governo, votou às oito e dez, e ficou a cumprimentar os vizinhos, pelo sim pelo não, a sugerir que pensassem bem, que os outros não eram de fiar. Sabedor, o dr. Crespo, do partido adversário, postou-se vinte metros antes do Falcato, na primeira linha de apertos de mão, um e outro respeitando os quinhentos metros.
 
Pelas nove e meia, só uma vintena tinha já votado. A D. Irene esqueceu-se do cartão, mas a mesa reconheceu a octogenária, decana da aldeia, o rapaz do Bloco torceu o nariz, voto na direita, por certo, melhor seria ter ficado em casa. Também o Tomé da funerária votou cedo, comentando que nem nesse dia deixava de ir às urnas, e avisando para se escolher bem, para se evitar um grande enterro. Na mesa, os afectos ao governo sorriram, nervosos mas descontraídos. As manas Rodrigues, Clotilde e Zezinha uma do PSD, outra do PS, chegaram sem pressa de votar, a que ganhasse teria o lanche pago pela outra, com scones e chá aromático, insistiu Clotilde, segura da vitória.
 
Pelas dez horas, chegou o Avelino, já entrado nos setenta, a mulher morrera um ano antes, e entretinha o tempo no café do Brás. Ainda ressacado da véspera, ao entrar na secção, tropeçou numa vala, estatelando-se e ficando com as calças ensopadas de lama.
 
Prestáveis, o Falcato e o dr. Crespo, adversários eleitorais, logo se uniram num bloco central de ajuda. Avelino, que pensara votar cedo para cair na cama a curá-la, começou a invectivar a junta pela falta de obras, e logo um comício foi improvisado à porta da secção de voto, cinco eleitores opinavam em roda junto dele, antes de se decidirem a  entrar:
 
-Isto é uma vergonha! Andamos a pagar para estes tipos comerem todos do mesmo tacho, obras é o que se vê. O povo é que é culpado, a carneirada anda a dormir, é o que é! -o fato enlameado e o ar zangado faziam do Avelino um inesperado descamisado, a Ermelinda e o Crispim, também com obras aguardando, concordaram, juntando-se ao
protesto:
 
-O Avelino tem toda a razão! Ainda ontem apanhei o presidente da junta, mas ele, nada, que já mandou um ofício, que já mandou um ofício, mas à porta dele já mandou pintar uma passadeira, essa é que é essa! Temos de fazer valer os nossos direitos, senão fazem de nós gato-sapato!
 
Às tantas eram já nove os revoltosos, inicialmente passivos, os delegados dos partidos aproveitaram e cavalgaram a onda, votando neles teriam a hipótese de escolher a lista certa, prometiam. No interior não havia fila, com todos na rua à volta dos lesados, contra os políticos que se enchiam e não faziam obras. Ganhando força e já desperto da ressaca, o Avelino alvitrou um boicote às eleições, e subindo para cima dum banco dirigiu-se à pequena multidão apelando à tomada da escola, pondo-se à cabeça do grupo. Alertado pelo barulho, juntou-se o pessoal que bebia no café do Brás, dirigindo-se à Mesa, urgia fazer justiça:
 
-Ó Castro, toca a arrumar a tralha e a encerrar a mesa dos votos! Aqui o povo não vota mais enquanto a junta não fizer obras, isto já passou das marcas! -e com a ajuda de mais dois, atiraram a urna ao chão, fazendo voar os votos como confetti. As manas aplaudiam, divertidas, perdiam a aposta do lanche mas ganhavam uma Maria da Fonte.
 
A Clotilde, que detestava a Cesaltina, aproveitou e postou-se frente a ela, o poder era deles agora, ruborizada, a Zézinha ordenou ao Castro barbeiro para não levantar cabelo, e subindo a uma cadeira, dirigiu-se aos insurrectos:
-Os políticos não passam a vida a falar em voto útil? O voto só é útil para quem o recebe, assim sendo, daqui não vai nenhum, que o povo já não vai em cantigas! Queremos a rua arranjada, e é para ontem!
 
O Falcato e o dr. Crespo, representantes dos partidos do centrão, entreolharam-se, urgia uma aliança para repor a ordem, que votassem, que eles depois usariam de influências para uma rápida conclusão das obras. Avelino estava de pedra e cal:
 
-Não se vota, nem vota mais ninguém! -e pegando no isqueiro, escrutinou os primeiros votos nulos do país, a GNR de Sintra vinha a caminho, mas era tarde, invocando tumulto, o Castro já fechara a secção de voto, vistas bem as coisas, repetindo-se a votação até seriam mais cinquenta euros.
 
Duas horas depois, armado com o ponteiro da escola, qual metralhadora, e ladeado pelas manas Silva, do comité improvisado, Avelino dava entrevistas à televisão, que o povo era de antes quebrar que torcer, sem arranjo das ruas o povo não votaria. Ah, e também queria a limpeza da roupa. Sinuosos, o Falcato e o dr. Crespo mostraram compreensão, prometeram tudo pagar, votando, e mais, votando neles, logo se resolveria a questão da vala.
 
Findo o dia, o país fizera a sua escolha, e apenas quatro mesas haviam boicotado, a do Castro, nos arredores de Sintra, era uma delas. Vítima do desmazelo da junta e já trôpego com o sétimo bagaço, o Avelino celebrou no café do Brás a sua primeira maioria absoluta.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Um dia na vida de António Salazar

“Lisboa, 8 de Julho de 2015


Nem um galinheiro, nem um chafariz, como está diferente Lisboa! A Praça da Figueira sumiu, tal como os mercados das Picoas e da Ribeira. Já não há guardas sinaleiros, varinas e magalas a partir para o Ultramar na Rocha do Conde Óbidos!


Espreitei S. Bento, incógnito nas galerias, uns fedelhos gritavam sem respeito uns pelos outros, até uma loira (falsa loira, cheira-me) preside hoje à Assembleia Nacional. Que saudades do Albino dos Reis, do Santos Costa, e das omeletas da Maria, pela manhã em S. Bento.


Vim de Santa Comba no Intercidades com umas jovens que diziam ser amigas do Erasmo, coitadas das piquenas, não sabem que já morreu, vou contar esta ao Cerejeira. Onde se terá enfiado o safardana, sempre atrás de soutiens rendados? E pretos!


Mudou muito, Lisboa. Fui passear de triciclo, um rapaz de brinco levou-me numa caranguejola chamada tuk tuk- estranho nome- a visitar a cidade. Agora metem queijo no pastel de bacalhau, vejam só, e mudaram o nome à ponte, depois duma Abrilada feita pela soldadesca.


Quis ir ouvir a Amália, mas parece que morreu, e está no Panteão, junto com o traidor do Delgado e com o Eusébio, um jogador da bola de Lourenço Marques. Sítio mal frequentado, cruzes, maldita a hora em que terminaram as obras de Santa Engrácia.


Melhoraram , as mulheres de Lisboa. Recordo a minha primeira vez ainda seminarista em Coimbra, com a Felismina. O Manuel, hoje cardeal, ficou de guarda, enquanto, ardendo em fé, penetrava os húmidos desígnios de Deus.


Muitos pensam que sou um bota-de-elástico, mas nada, até aprecio um bom teatro, e boa música, zarzuelas sobretudo, não vejo nenhuma no Coliseu, só anúncios a um tal Nos Alive, deve ser coisa ligada ao Churchill, é em inglês. Alguns mal-intencionados zurziam contra o tio António porque que prosseguia sem desvio a missão que a Providência lhe confiou, mas ignoram o que é ser português das quinas e cristão temente a Deus e à Providência. Jacobinos duma figa, até o Papa é um dançarino de tango encharcado em cachaça. Está tudo perdido!


Reparei que falam pelas ruas duma tal troika, pensava ser Fado, Futebol e Fátima, mas depois que me contaram, percebi: espatifaram o ouro e entregaram as colónias, fiquei para morrer quando me contaram, ia caindo da cadeira (outra vez!) numa casa de carne picada, um botequim chamado McDonald’s onde em vão pedi uma patanisca e um branco. Mas não mandam esta gente para o Tarrafal? Um empregado dum café diz que os rapazolas de S. Bento vão para Bruxelas a toda a hora. Então e Sá da Bandeira? E Quelimane? E Porto Amboim? Quem está lá agora, a escorraçar os turras, e a expandir a Fé?


Há que voltar para Santa Comba, rápido, que isto é uma terra de loucos desalmados. Crianças, mal vi, os bolchevistas devem-nas ter comido ao pequeno almoço, dizem-me que se divertem com uma ardósia moderna chamada Playstation.


Aproxima-se uma velha, diz que me reconhece de algum lado. Nego, claro. Que sim, que me viu num filme do Ribeirinho, a caminho do Torel, preso. Santa ingenuidade! Para o Torel preso, só se fosse às minhas ordens, e de marcha a filambó. É o que dá verem muito dessa telefonia com imagem, a que chamam televisão. E há umas coisas chamadas tabletes, perguntei se eram suíços, mas não, é só para passar com um dedo, e sem lamber.


Portugueses: ensinai a vossos filhos o trabalho e a vossas filhas a modéstia, elas que deixem os livros de auto-ajuda e o Facebook. E se não poderdes fazer delas santas e castas, fazei delas ao menos cristãs e fadas do lar.


Volto para casa. Acabaram com o papel selado, o mata borrão, o selo branco, as máquinas HCESAR, que faria eu aqui, sem mangas de alpaca e leais servidores, sem o Rosa Casaco e o bom do Barbieri? Parece que vivem em democracia, e gostam da rambóia. Vou-me embora, enquanto a dita dura.


António Salazar  
ditadorantonio@vivaapide.com
Professor de Moral em Santa Comba Dão”

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Ventos de Suão





Seis meses. Seis parcos meses restavam a Cristóvão Valdágua, sentenciou o dr.Chambel, um linfoma desbravando o caminho que conduziria ao desenlace, ingrato e furtivo. Primeiro revoltou-se, pensando em Felícia, nos quarenta anos de casamento, os estudos islâmicos e as viagens no mundo árabe. Agora, ciente da fragilidade da vida, queria usufruir do tempo e ser feliz, e preparar a partida com ela ao lado.

Com uma última viagem procuraria reparar as falhas com Felícia, muitas vezes deixada só com os filhos, sobretudo durante as longas viagens à Turquia, onde investigara sobre a Arca de Noé, em Ararat, merecera um artigo no National Geographic. A Tunísia, amena e mediterrânica, seria o destino do adeus, miscelâneo e tépido. Conformada embora com amargura, Felícia acedeu, em Port El Kantaoui, praia de mar quente e amendoeiras, perderam-se em passeios pela areia, comendo tâmaras ao fim da tarde e partilhando um cúmplice narguilé na na noite estrelada do Magreb, enquanto o muezzin chamava para as preces. Um circuito pela Cartago de Cipião e Jughurta devolveu-o ao mundo de civilizações antigas, agora assaltado por escorpiões e turistas, um peixe fresco em Sidi Bou Said propiciou a felicidade dos momentos simples, avaramente saboreados. Com os medicamentos sempre por perto, Felícia via-lhe a cara a desfigurar, moldando a máscara do fim. Cristovão já não tirava notas, escrevinhava frases, que depois rasgava, indignas de imortalidade, no deserto, agora tão cheio de sentido, descobria pensamentos místicos, amenizando as dores do corpo e da alma dilacerada, e pela última vez, o amarelo vivo das dunas, os palmeirais de Tozeur, o branco espectral do Chott-El-Jerid, os chás de menta nas covas trogloditas, rodeados de inefáveis vendedores.

Em Douz, enfiaram a tradicional djellabia, e andaram de camelo, a ampulheta do tempo ia esvaziando. Como outra seria agora bem-vinda, para acabar os livros e recuperar o tempo desperdiçado. Na tenda que lhes servia de quarto, ao som dum alaúde longínquo, amaram-se como na primeira vez, ainda estudantes em Coimbra.

Na última etapa, depois da cidade santa de Kairouan, a calmaria duma villa em Djerba, cheia de pescadores em batéis e turistas gozando a placidez do azul marítimo. Cansado, Cristovão dispensou as visitas ao soukh, quedando-se pelo hotel, junto ao mar. Felícia e ele, ele e Felícia, de mãos dadas e em silêncio contemplando o sol alaranjado que dominava o horizonte. Na varanda do quarto, Cristóvão acariciou-lhe o rosto e beijou-a:

-Agradeço teres aparecido na minha vida. Adorava ficar ao teu lado, sentir o teu abraço, o teu cheiro, o teu calor! Fostes o anjo que veio até mim e deu luz à minha vida. Mas agora, já não há tempo. Foi -se o tempo…

-Cristovão, não digas nada, meu amor. Ninguém vai partir, vais ver…

Ele pôs-lhe um dedo nos lábios, cerrando-os, e continuou:

-Já não pertencemos um ao outro, tomamos diferentes rumos, agora. Quero que continues na estrada que percorremos. Eu na berma e tu ao centro, esplendorosa!

Fazendo silêncio, continuou olhando o mar, bafejado pelo suão da tarde. Nostálgica, Felicia continuou a conversa:

 -Lembras-te do dia em que me pediste namoro, e te disse que tivesses respeito, e não fosses atrevido? Foi o dia mais feliz da minha vida. Há muito que secretamente o desejava, eu…

A mão de Cristóvão, agarrada à sua, ficou nesse momento morna e sem força, fixo no horizonte, ele sorria inerte e pálido. O Grande Sul levava-o num cavalo alado, soprava uma nuvem de areia dos lados de Monastir. O historiador de temas árabes enfim concluía o derradeiro livro.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Um bolchevista em Sintra




-Não sou desertor nem refratário, meus senhores, sou um exilado político! -declarou o russo no Governo Civil após chegar a Lisboa. Vladimir Ilitch Lenine e sua mulher, Nadia Krupskaya, visitavam Portugal pela primeira vez depois de anos na Sibéria, para onde ele fora enviado pelos esbirros de Nicolau II. Vivia em Berna, na Suíça, e com a visita a Portugal procurava apoios para combater o regime czarista, apelar à unidade proletária e à revolta contra o capitalismo. Em finais de 1910, a instauração da República permitira que organizações de trabalhadores se afirmassem, e após um período de agitação social, sindicalistas reformistas e anarquistas haviam criado a União Operária Nacional, em rutura com o governo republicano, no seguimento da repressão que se abateu depois da recusa do governo em discutir as reivindicações operárias. Fiel às orientações da Internacional Socialista em Zimmerwald, a União Operária Nacional posicionara-se contra a entrada na Grande Guerra, e tumultos em Lisboa haviam provocado centenas de mortos e feridos. Apesar de o Governo ter reduzido o horário dos operários para 8 horas, ocorriam assaltos a padarias, devido ao aumento do pão. Impedido de voltar à Rússia, Lenine viajava pela Europa, e o Portugal republicano era um lugar inspirador na luta contra os Romanov e o capitalismo mundial.

No Governo Civil, mais preocupados com os protestos do pão, foi olhado com desinteresse, e deixaram-no seguir. O contacto em Lisboa era Eudóxio Batalha, encadernador e antigo companheiro de Azedo Gneco, grande figura do socialismo, já falecido. Era um autodidata, comunicando com Lenine num francês pirrónico, lera Proudhon e Bakunine, e a Comuna de Paris era o seu modelo. Com Gneco, iniciara-se no Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosas, e fizera parte do Grupo da Democracia Socialista, bakuninista e libertária.

Lenine era um cerebral, achando que só a organização do proletariado sob direção da vanguarda levaria ao sucesso, e Eudóxio escutou-o com interesse. Contudo, preferia os arsenalistas do Alfeite, mais eficazes em resultados.

Lenine e Nadia alojaram-se num hotel da Baixa, a reunião com o núcleo socialista seria em Sintra, no Centro Republicano, onde estariam sindicalistas da União Operária Nacional e jornalistas afetos à corrente socialista, pelo que no domingo seguinte, correligionários convocados por Eudóxio chegaram numa camioneta, que os recolheu perto do Jardim Zoológico. Depois de os cumprimentar, em francês, Vladimir explicou ao que ia:

-Tovarich! Camaradas! Trago até vós a fraterna saudação do povo oprimido da Rússia!. Sei que os trabalhadores portugueses já se libertaram do rei opressor e da oligarquia, e serão países como os nossos, de industrialização débil e fracos elos na luta internacionalista dos operários, quem fará cair as forças do capital e o imperialismo mundial que lhe dá cobertura. Há que chamar a unir!. Os capitalistas não são capazes de sacrifícios, está-lhes no sangue explorar! Há que lutar! A morte de uma organização só acontece quando os de baixo já não querem, e os de cima já não podem! Operários portugueses, peço-vos, juntemo-nos para a revolução mundial, organizemo-nos em comités operários, e o futuro esperançoso do socialismo recompensará a luta dos trabalhadores explorados e conduzirá ao Homem Novo!

Empolgado, o russo galvanizou a sala. Ribeiro de Carvalho, um dos jornalistas, ia explicando aos presentes que há anos que as coisas andavam tremidas na Rússia, e este Lenine era uma figura grada, o czar não gostava dele, mas era um crânio, advogado até. Domingos, um jovem anarquista, levantou-se e saudou:

-Em Portugal o povo não tomou ainda o destino nas suas mãos, infelizmente. E a mensagem que deixamos é só uma: a luta armada! Só a força da bomba pode liquidar os ricos que pagam jornas de miséria. Queremos que o povo pegue em armas, e tal como já matámos um rei que se refastelava à conta do povo, também os que hoje ilegitimamente exercem o mando serão impiedosamente apeados!

A sala aplaudiu, Lenine, cerrando o punho, depois de lhe traduzirem as palavras, aprovou, rematando:

-Um dia não muito distante, surgirá a vanguarda dos povos que estabelecerá o governo dos oprimidos e famélicos, camaradas! Nas fábricas de Manchester, nas estepes de Kazan ou nas oficinas de Portugal! Há que vigiar e lutar, pois o Sol será dos operários e camponeses, dos soldados e dos marinheiros! Ontem em França, amanhã em Lisboa e S. Petersburgo! Obrigado, camaradas!

A reunião terminou com promessas de ação, um jantar bem regado na Rinchoa, em casa dum primo de Eudóxio com vivas à revolução pôs fim ao auspicioso encontro, até Leal da Câmara fez uma caricatura de Vladimir, que este agradeceu, emocionado.

Passados uns dias, Lenine voltou para a Suíça, a missão estava cumprida e a semente lançada, por cá o movimento operário, mais ou menos anarquista, continuou promovendo greves e atentados bombistas. Dois anos depois, nevava copiosamente em Zurique, um comboio especial partia para S.Petersburgo com um misterioso passageiro a bordo. Por uns anos, ventos de mudança iriam soprar a Leste, cantando amanhãs rumo à Utopia.