quinta-feira, 25 de junho de 2015

Um bolchevista em Sintra




-Não sou desertor nem refratário, meus senhores, sou um exilado político! -declarou o russo no Governo Civil após chegar a Lisboa. Vladimir Ilitch Lenine e sua mulher, Nadia Krupskaya, visitavam Portugal pela primeira vez depois de anos na Sibéria, para onde ele fora enviado pelos esbirros de Nicolau II. Vivia em Berna, na Suíça, e com a visita a Portugal procurava apoios para combater o regime czarista, apelar à unidade proletária e à revolta contra o capitalismo. Em finais de 1910, a instauração da República permitira que organizações de trabalhadores se afirmassem, e após um período de agitação social, sindicalistas reformistas e anarquistas haviam criado a União Operária Nacional, em rutura com o governo republicano, no seguimento da repressão que se abateu depois da recusa do governo em discutir as reivindicações operárias. Fiel às orientações da Internacional Socialista em Zimmerwald, a União Operária Nacional posicionara-se contra a entrada na Grande Guerra, e tumultos em Lisboa haviam provocado centenas de mortos e feridos. Apesar de o Governo ter reduzido o horário dos operários para 8 horas, ocorriam assaltos a padarias, devido ao aumento do pão. Impedido de voltar à Rússia, Lenine viajava pela Europa, e o Portugal republicano era um lugar inspirador na luta contra os Romanov e o capitalismo mundial.

No Governo Civil, mais preocupados com os protestos do pão, foi olhado com desinteresse, e deixaram-no seguir. O contacto em Lisboa era Eudóxio Batalha, encadernador e antigo companheiro de Azedo Gneco, grande figura do socialismo, já falecido. Era um autodidata, comunicando com Lenine num francês pirrónico, lera Proudhon e Bakunine, e a Comuna de Paris era o seu modelo. Com Gneco, iniciara-se no Centro Promotor de Melhoramentos das Classes Laboriosas, e fizera parte do Grupo da Democracia Socialista, bakuninista e libertária.

Lenine era um cerebral, achando que só a organização do proletariado sob direção da vanguarda levaria ao sucesso, e Eudóxio escutou-o com interesse. Contudo, preferia os arsenalistas do Alfeite, mais eficazes em resultados.

Lenine e Nadia alojaram-se num hotel da Baixa, a reunião com o núcleo socialista seria em Sintra, no Centro Republicano, onde estariam sindicalistas da União Operária Nacional e jornalistas afetos à corrente socialista, pelo que no domingo seguinte, correligionários convocados por Eudóxio chegaram numa camioneta, que os recolheu perto do Jardim Zoológico. Depois de os cumprimentar, em francês, Vladimir explicou ao que ia:

-Tovarich! Camaradas! Trago até vós a fraterna saudação do povo oprimido da Rússia!. Sei que os trabalhadores portugueses já se libertaram do rei opressor e da oligarquia, e serão países como os nossos, de industrialização débil e fracos elos na luta internacionalista dos operários, quem fará cair as forças do capital e o imperialismo mundial que lhe dá cobertura. Há que chamar a unir!. Os capitalistas não são capazes de sacrifícios, está-lhes no sangue explorar! Há que lutar! A morte de uma organização só acontece quando os de baixo já não querem, e os de cima já não podem! Operários portugueses, peço-vos, juntemo-nos para a revolução mundial, organizemo-nos em comités operários, e o futuro esperançoso do socialismo recompensará a luta dos trabalhadores explorados e conduzirá ao Homem Novo!

Empolgado, o russo galvanizou a sala. Ribeiro de Carvalho, um dos jornalistas, ia explicando aos presentes que há anos que as coisas andavam tremidas na Rússia, e este Lenine era uma figura grada, o czar não gostava dele, mas era um crânio, advogado até. Domingos, um jovem anarquista, levantou-se e saudou:

-Em Portugal o povo não tomou ainda o destino nas suas mãos, infelizmente. E a mensagem que deixamos é só uma: a luta armada! Só a força da bomba pode liquidar os ricos que pagam jornas de miséria. Queremos que o povo pegue em armas, e tal como já matámos um rei que se refastelava à conta do povo, também os que hoje ilegitimamente exercem o mando serão impiedosamente apeados!

A sala aplaudiu, Lenine, cerrando o punho, depois de lhe traduzirem as palavras, aprovou, rematando:

-Um dia não muito distante, surgirá a vanguarda dos povos que estabelecerá o governo dos oprimidos e famélicos, camaradas! Nas fábricas de Manchester, nas estepes de Kazan ou nas oficinas de Portugal! Há que vigiar e lutar, pois o Sol será dos operários e camponeses, dos soldados e dos marinheiros! Ontem em França, amanhã em Lisboa e S. Petersburgo! Obrigado, camaradas!

A reunião terminou com promessas de ação, um jantar bem regado na Rinchoa, em casa dum primo de Eudóxio com vivas à revolução pôs fim ao auspicioso encontro, até Leal da Câmara fez uma caricatura de Vladimir, que este agradeceu, emocionado.

Passados uns dias, Lenine voltou para a Suíça, a missão estava cumprida e a semente lançada, por cá o movimento operário, mais ou menos anarquista, continuou promovendo greves e atentados bombistas. Dois anos depois, nevava copiosamente em Zurique, um comboio especial partia para S.Petersburgo com um misterioso passageiro a bordo. Por uns anos, ventos de mudança iriam soprar a Leste, cantando amanhãs rumo à Utopia.

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