segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Terroristas na Portela de Sintra



A carrinha ficou no estacionamento enquanto os dois jovens se abasteciam no Pingo Doce da Portela, à porta, ruidosos alunos do liceu devoravam pizza e refrigerantes. Pelo carro das compras, levaram só alimentícios: frangos, arroz, pão, um deles comprou o jornal. A velha carrinha pão de forma estava em desalinho com jornais velhos pelo chão, um bidon de gasolina, toalhas de praia, e CD’s de Lady Gaga no porta-luvas. Na Portela ninguém os conhecia, mas há três dias pelo menos tomavam um galão e um croissant no café do Baptista, sempre à mesma hora e antes de irem ao supermercado.

A Gracinda do 26, frente ao jardim, reparou que os dois indivíduos estavam no segundo esquerdo. Desde que o Ramiro morrera, três meses antes, a casa ficara fechada, a única filha vivia em Londres e só fugazmente lá ia. Amigos ingleses, pensou, cuscando atrás das cortinas, a carrinha era velha e pareciam estrangeiros. Já comentara até com a Ercília do primeiro esquerdo, quando esta saiu a passear o cão. Os novos ocupantes pouco se viam e ignorava o que fariam lá dentro, só havia uns tarecos que a filha do Ramiro deixara. Ao fim de cinco dias, sumiram e a carrinha pão de forma não voltou a ser vista, para a vizinhança caso arrumado e as conversas de novo sobre a crise e a ciática da Gracinda.

Uma semana depois, almoçava ela umas pataniscas, o Jornal da Tarde abriu com a notícia de que se suspeitava que jihadistas ingleses teriam estado em Portugal, em trânsito para a Síria, onde integrariam as fileiras do Estado Islâmico. Casas nos arredores de Lisboa estariam a ser alvo de observação pela polícia portuguesa, bem como estrangeiros fora dos circuitos turísticos. Qual clique repentino, a Gracinda lembrou-se dos rapazes do segundo esquerdo, partiram como chegaram e tinham um sotaque esquisito, correu a comentar com a Ercília. Era isso, só podiam ser eles, um telefonema para a esquadra despoletou uma visita ao local, à cautela, havia que apurar. Alertada, uma equipa da SIC plantou-se no local, transmitindo em directo, logo atraindo a CNN e outros canais. Gracinda e Ercília desdobravam-se em entrevistas, à TVI perguntaram mesmo quando seriam convidadas para o Goucha, para terem tempo de arranjar o cabelo.

Montado o perímetro, chegaram as minas e armadilhas e os habituais reformados do jardim, arranjada uma ordem judicial, a porta foi franqueada, mas aparentemente nada de estranho foi detectado, se bem que jornais ingleses dessem azo a suspeitas. Atraídos pelo circo mediático, os vizinhos desdobravam-se em comentários, o Vítor vira-os no café do Baptista, tinham aspecto de terroristas, sim senhor, um tinha até uma T-Shirt com as palavras Sex Bomb estampadas.

Passaram uns dias, recolhidas impressões digitais e com a ajuda da Europol, lá se descobriu que eram apenas amigos da filha do Ramiro. Tendo ela oferecido a casa para uns dias em Portugal, já de volta a Inglaterra estranharam a visita da Scotland Yard. Estudantes, tinham ido conhecer Sintra e como estivesse bom tempo, haviam ficado uns dias a fazer praia.

As notícias reportando estes factos não sossegaram Gracinda, ali havia tramóia. Eram terroristas, sim senhor, mas a polícia não podia admitir, para não espantar outros que cá estivessem, com esta se ficava, tendo ido passear à vila, todos os turistas lhe pareceram estranhos. O marido da Alzira explicou-lhe que os tais jihadistas eram uns barbudos que queriam restaurar o Califado, e o Castelo dos Mouros era um alvo a recuperar, mil anos depois. Que tratantes, comentou com a Ercília, escutadas notícias sobre pepinos infectados, só poderia ser coisa desse tal califa, e à cautela não voltou a comprar mais, poderiam estar contaminados.

Com os dias, a coisa saiu da actualidade e as novidades passaram a ser as transferências do Benfica. A casa do Ramiro continuou fechada, para ela perigoso esconderijo de bandidos, que andava para aí uma seita que só visto, já nem o nosso cantinho escapava. Chegado o mês de Julho, Gracinda foi de férias para a terra, o assunto morreu e Sintra saiu do mapa mediático, voltando ao movimento do Pingo Doce e aos pacientes a caminho das análises, até a escola fechou para só abrir em Setembro.

No final do mês, com a Portela deserta e os serviços a meio gás, três indivíduos com um Megane alojaram-se no prédio ao lado do da Gracinda, transportando caixotes e sacos pretos colados com fita adesiva, despovoado o bairro, nem se deu por eles. Na segunda noite, com um pano com as palavras  Euskadi Ta Askatasuna estampadas, e ladeados por uma bandeira com uma serpente enrolada num machado, os forasteiros, encapuzados, gravaram um vídeo que mais tarde discretamente deixaram na Zara no Cascaishopping. Anunciando um atentado, a mensagem não deixava dúvidas sobre os planos da ETA, razão tinha a Gracinda, de férias na terra, a Portela estava a virar um santuário terrorista.

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