domingo, 19 de outubro de 2014

Al Zeimer, o emir de Boliqueime





Era uma vez um mouro nascido na terra das amendoeiras, marafado à nascença, ainda jovem, foi mandado pelo pai a estudar na madrassa, contas e álgebra foram a sua vocação. Alto e esguio, tímido e encavacado, partiu depois para o grande bazar, onde se dedicou à banca. Legumes, frutos, amêndoas, de tudo vendeu o jovem, mouro de trabalho, poupando para o futuro, professor mais tarde na madrassa onde estudara.

Estando o Emirado dominado pelos almorávidas e indo passear um camelo novo, anunciou a jihad, ele que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, e pregando a guerra santa chegou a emir. Allah u akbar!- gritou quando  de cimitarra em punho entrou no Palácio de Al Sanbent, perto da Grande Mesquita, seguido pelas tropas do Crescente Laranja.

Como emir fez obras, mas, mandado pelo Califado, mandou arrancar as amendoeiras e figueiras, mandou encostar os barcos e vender o gado, deu trabalho porém, e os muezzin do minarete chamavam por ele como se o próprio Profeta fosse, senhor do Islam e pavor dos infiéis kafir, para ele nada mais que camelos. Cansado, e tendo-se retirado dez anos, entendeu, ouvida uma moura encantada, voltar à Cidade Santa, para aplicar a sharia, mas os tempos haviam mudado e teve de o fazer com o vizir almorávida Youssuf El Socas, estudioso de Filosofia e chefe das tribos do norte. Disputando a interpretação do Corão, deixou que se esbanjassem os dinares, obrigando a que, enviados pelo Califado, três reis do Oriente chegassem trazendo ouro, incenso e mirra. Envelhecido e agastado, Al Zeimer arrasta-se hoje, sem dinheiro nos cofres ou tâmaras na tenda, sem primavera árabe, resta-lhe o inverno em Bulik Eime, se a isso os reis magos obrigarem e os dinares chegarem e aos três reis trocar os passos. A História guardará de Al Zeimer a memória de Ali Babá, que abrindo a gruta com palavras mágicas, logo, qual bolo-rei, se deixou levar por quarenta ladrões. Salam’alek, Al Zeimer, emir de Bulik Eime e senhor do Gharb Al Andaluz!

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